Há uns meses, blogs, twitters e MSNs começaram a rodar um vídeo com o trecho da apresentação do carioca Sany Pitbull em um dos maiores clubes do mundo, a Fabric. O DJ está tocando a música mais batida do mundo, "We Are Your Friends" (sem necessidade de nomear os idealizadores da faixa), e consegue fazê-la renascer. Armado de sua sampler machine, que guarda recortes aleatórios das músicas, o brasileiro joga tambores entre os sintetizadores típicos do novo electro e a pista vai ao delírio.
Em plena ascensão, o DJ se divide entre mil projetos. Está produzindo músicas para o filme Era Uma Vez com regência do maestro Berna Ceppas da Orquestra Imperial, editando imagens para o documentário City of Funk, que sairá na Alemanha, além de criar novas faixas para seus singles internacionais.
Conversei com Pitbull, via e-mail, para tentarmos descobrir como um residente de festas do morro consegue tocar em prestigiados lugares ao redor do globo, como e quando ele iniciou a mistura de música eletrônica com o baile funk e sua entrada no selo alemão Man Record.
Conte um pouco de como um produtor dos morros chega a tocar num dos melhores clubes do mundo (Fabric, Londres)?
Era questão de tempo. Há alguns anos o baile funk saiu dos clubes de subúrbio do Rio e subiu os morros, lá ele pegou força e se transformou no conhecido Funk Carioca e passado algum tempo o Brasil descobriu essa musicalidade das favelas do Rio. E como o samba fez no passado, chegou a vez do descriminado Baile Funk dominar o mundo. Essa historia começou em 2006 quando fiz a minha primeira turnê junto com o selo Carioca Funk Clube, foi paixão à primeira vista por parte dos europeus. Chegar no Fabric foi conseqüência desse trabalho. Talvez pelo Fabric ter essa mente aberta às novidades sonoras mundiais. Pra mim foi sensacional e está sendo maravilhoso participar dessa distribuição e divulgação do som que eu curto há mais de 22 anos.
Quais os programas que você usa para produzir suas faixas?
Basicamente eu uso a MPC e gosto também do ACID da Sony e do pro tools pra finalizar minhas produções
Quais equipamentos você usa na hora da discotecagem?
Pouca coisa: 2CDJ 800 ou 1000 da Pioneer e uma MPC 2500 da akai.
Você acha que a música que você faz consegue conversar com o baile-funk comum e também com essa nova levada de músicos atuando sob o rótulo de neo-funk?
Sim, consigo sim introduzir essas novas influências nos bailes funk tradicionais do Rio. Na verdade eu não gosto muito desses rótulos que dão a essas novas sonoridades, pra mim tudo é funk. Se você for à um baile de favela hoje e voltar três meses depois vai verificar muitas coisas novas em sonoridades e tipos de produção. O funk está sempre em constante mutação. O que na verdade está acontecendo é que o publico europeu, que não tem esses parâmetros de funk tradicional, de rádio ou proibidão ou sei lá o que mais, está mais aberto a essa nova sonoridade e a coisa lá fora está andando muito mais rápido.
Quais são suas influências eletrônicas? E influências de baile-funk?
Eu gosto de música, sem classificação de gênero. Respiro música desde que me entendo por gente, desde muito novo sempre ouvi de tudo, eu também fui influenciado quando criança pela música internacional que nos invadia via rádios FM. Sempre ouvi de tudo e isso me ajuda muito quando estou produzindo, não tenho preconceito e nem medo de misturar tudo com tudo, e claro, colocando dentro no universo do Baile Funk. As referências do Baile Funk eu trago de berço... Afinal de contas são anos curtindo, dançando, produzindo e tocando em baile funk.
Quando você começou a fazer essas misturas?
Foi por influência do selo Carioca Funk Clube. A vontade era fazer uma música sem apelo comercial direto, eu queria fazer um som com a minha cara e poder colocar nele o que eu bem entendesse sem a necessidade dessa música fazer sucesso rápido. Lá encontrei espaço e encontrei produtores que também tinham essa vontade. Isso começou por volta de 2004.
Qual música que você toca na Fabric que você não poderia tocar num festival na Bahia? E vice-versa.
Sabe que eu não sei? Depende da vibe, de como eu fui dormir na noite anterior, de como eu acordei e a participação direta de quem está ouvindo meu set, vou introduzindo as coisas e se a pista não cair vou indo sem limites. O que importa é a galera dançar.
Quais os samples de artistas internacionais que você mais usa?
No LIVE, que faço na MPC, eu uso de tudo: de Nirvana a Rolling Stones, de sons de vídeo games a Yes, de música clássica com Olodum a Guns... É muita coisa mesmo. Talvez seja uma forma de homenagear esses artistas e também poder mostrar como um DJ de funk carioca toca de maneira diferente aquilo que todo mundo já conhece.
Quais são os produtores nacionais de funk mais criativos?
Gosto do Phabyo, Mavi, Chernobyl, Dedé Mandrake, GrandMaster Raphael, Juninho Carioca, Edgar, Amazing Clay e do Sandrinho.
Quais as melhores faixas de gringos de baile funk?
Vou falar dos produtores estrangeiros que eu gosto: Diplo (EUA), Sinden (UK), Rideon (Finlândia), K-20 (Japão), Cassiano e Sujinho (EUA), e do Schowi e Passion (Alemanha). Todos são muitos talentosos e tem um respeito muito grande com o nosso Baile Funk Carioca.
Como você entrou na gravadora Man? Você tem liberdade de usar samples nas faixas lançadas pela gravadora?
Quando fui apresentado à gravadora Alemã Man Recordings, isso aqui no Rio, eles queriam apenas o "Funk Tradicional Carioca", não estavam interessados nessa mistura e nessa nova sonoridade, talvez por estarem a fim de mostrar o que estava acontecendo na cena dos Bailes naquele momento. Foi por insistência da sócia majoritária do Carioca Funk Clube, Adriana Pittigliani, que participei da serie "Baile Funk Masters" já com esse "novo funk". Tanto que o meu disco foi lançado em parceria com a Man Rec/CFC. Quantos aos samples que usei do Kraftwerk em "FUNK ALEMÃO" a Man Rec, responsável pela prensagem do vinil, que fez as devidas liberações.
Você muda seus sets de acordo com o lugar que está tocando? Você acha que um set seu do Rio de Janeiro funcionaria bem em São Paulo?
Eu toco pra pista e pro público, claro que a audiência mudando eu vou me adaptando. Não tenho um set pronto e definido, cada festa é uma surpresa pra eles e pra mim também, desde os bailes na Favela ao Fabric em Londres, em Helsinque, Estônia, Amsterdã, Berlim, Paris, Zurique, Copenhaguen, Estocolmo, Roterdã, Lisboa, Nova Iguaçu, Fortaleza, Porto Alegre, Macapá, Manaus, Salvador ou São Paulo. Tudo muda... O importante é que eu toco funk e de todas as maneiras possíveis e imagináveis e sem preconceito nenhum da minha parte. Se a galera tá curtindo? Já é.
O DJ volta a São Paulo no dia 14 de junho, na CREW.
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